Lugares Vazios
- Evas com K

- 5 de ago. de 2020
- 3 min de leitura
O mundo vinha perdendo a ideia sobre o correr do tempo e sobre o vazio, talvez pelo bombardeio de notícias a todo tempo, onde antes a preocupação da grande maioria para o final de semana era a rotina de ir a teatro, cinema, biblioteca, praças, estádios de futebol, ou reunir os amigos e familiares com cervejinha gelada e tudo a que tem de direito. O que antes era comum, agora, de fato, não existe mais. A experiência coletiva que a sociedade estávivenciando como distanciamento social trouxe reflexões sobre como eram as relações anteriormente. Estar junto era tão natural e comum que não era merecedor de importância. Agora ver, falar e tocar outro ser humano tem feito tanta falta como nunca fora imaginado. Isso pode parecer ruim, mas a busca por novas formas de ver e viver a vida faz parte da natureza humana, porém não afasta de nós o pensamento inevitável: “Quando a pandemia acabar será possível voltar ao normal?” “E o que de fato seria normal”?

Autoridades de saúde têm defendido as medidas de isolamento social como forma de fazer com que menos casos de COVID-19 surjam a cada dia para "achatar a curva" de modo a evitar um aumento no número de casos. Locais de aglomeração como bares, restaurantes, cinemas, teatros, escolas, estádios e casas de espetáculos não devem abrir suas portas até que a doença esteja contida. A orientação maior, vinda da Organização Mundial da Saúde e da grande maioria dos países, é ficar em casa. A medida de prevenção da COVID-19 inclui distanciamento social, consequentemente, vivemos agora, em um mundo cheio de lugares vazios. É curioso pensarmos que em um mundo tão cheio de pessoas, hoje existam tantos locais desocupados ou pouco ocupados.
A palavra “vazio”, etimologicamente diz que não contém nada; que não está com seu conteúdo habitual procede do Latim vacivus, “desocupado, vago, desprovido, sem nada”, relacionado ao verbo vacare, “não ter dono, estar isento de algo, estar sem ocupação”. Lugares vazios não apenas de vazio demográfico, mas vazios de humanos nos espaços, o vazio quase sempre nos desajusta. Comumente, ao longo da vida temos a oportunidade de conhecer vários lugares vazios, alguns inóspitos e outros desérticos. Lugares onde aparentemente existiam poucas coisas, mas na atualidade vivemos uma contradição, pois vivenciamos uma ocasião em que os lugares vazios estão desocupados, ou deveriam estar pela necessidade de sobrevivência.

Os olhos agora contemplam o vazio, o distanciamento social trouxe mudanças na rotina de pessoas que, nunca antes precisaram passar tanto tempo presas dentro de casa. O que estamos fazendo das nossas noites dos finais de semana? Agora nos deparamos com portões fechados numa experiência de tentar conter o progresso do mal invísivel. Não há trânsito, nem circulação de ônibus, não há crianças em frente às escolas, nem templos religiosos com suas vívidas celebrações. Os lugares que frequentávamos, já não são mais os mesmos. Não ouvimos mais riso solto das crianças nos parques, os bares estão vazios de jovens falando ao mesmo tempo e com o copo cheio festejando a vida, ruas vazias de um amontoado de pessoas sempre apressadas que agora não têm mais quem encontrar, nos estádios agora ecoa apenas o silêncio da torcida, o que traz um sentimento de desamparo.
A crise causada pela pandemia vai provocar uma profunda reestruturação econômica e social, pois colocou uma nova lente sobre as relações humanas e nos forçou a valorizar o mais simples. O tempo passa, e com ele os dias, a saudade aperta e com ela a vida vai ganhando outro sentido, estamos distantes do outros, mas não precisamos estar distantes de nós mesmos. Momentos de crise mostram uma oportunidade de construção de uma nova forma de olhar, um novo despertar. Quando retornarmos a nossa rotina, precisaremos estabelecer novas regras de comportamento saudável em relação à vida de todas as suas variadas expressões; sentar, tomar um chá e ler um livro, ouvir musica de qualidade e falar sobre como somos agraciados por estarmos vivos, agradecer, observar como o céu é lindo, olhar os pássaros, dar um sorriso e desejar bom dia pro senhorzinho que encontramos no caminho.
A solidão nos fez pensar na busca de sentido novo para a vida. Não esqueçamos dos pequenos, porém os mais importantes valores da vida. Não podemos perder nossa essência, é a coisa mais preciosa que temos. Não podemos deixar que tirem isso de nós. Nossa felicidade é muito mais importante que qualquer outra coisa!
Lugares vazios não são desertos de sentidos.

Referências: Ávila, C. S. (2011). Crise e estabilização em Psicopatologia Fundamental. Dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Boff, L. (2011). Crise oportunidade de crescimento. Petrópolis: Vozes. https://origemdapalavra.com.br/artigo/vazio/ https://www.saude.gov.br/component/tags/tag/oms https://saude.gov.br/
Fonte das Imagens: Divulgação da Internet




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