Hoje você pode até não concordar
- Evas com K

- 5 de out. de 2020
- 3 min de leitura

Você pode não concordar de algumas correntes do movimento feminista ou não ter afinidade com as ideias que ele levanta, mas conquistas das mulheres ao longo dos tempos são inegáveis: se você é mulher e concluiu a escola; se você chegou ao ensino superior; se você trabalha fora de casa; se você não é obrigada por lei a pedir autorização ao seu marido para trabalhar; se você tem a opção de usar contraceptivos; se você tem a opção de se divorciar de um casamento infeliz; se você pode fazer uma denúncia em caso de agressão doméstica; se você tem a opção de ter a guarda dos seus filhos em uma separação; se votou nas últimas eleições, agradeça ao movimento feminista.
No final do século XIX e início do século XX os homens eram os provedores dos lares e gestores dos bens familiares. As mulheres eram sustentadas por esses recursos e, caso tivessem interesse em trabalhar fora de casa, precisavam da autorização de seus maridos.
Entendendo os homens como provedores e a mulheres como “cuidadoras” e dependentes deles, naturalmente, os espaços sociais públicos se tornaram ocupados, na maior parte, por homens, enquanto os espaços sociais privado-domésticos ou relacionados ao “cuidar”, como as áreas da saúde e da educação, principalmente, se tornaram ocupados, na maior parte, por mulheres. Dessa forma, os homens foram definindo estruturas e culturas tipicamente masculinas dentro dos espaços sociais que ocupavam e as mulheres, da mesma forma, também foram definindo estruturas e culturas que melhor se adequavam a elas em seus espaços.
O imaginário humano foi sendo povoado por "uma gama imensa de mitos, cosmogonias, seres folclóricos etc. A posição e o papel da mulher em meio a este circuito acabam sendo expressos através desses mitos inscritos no imaginário" (Almeida, 1992, p.15).

A palavra “gênero” começa a ser utilizada nos anos 80 do século XX, nessa época, as investigações sobre a condição social das mulheres já apontavam uma forte desigualdade entre homens e mulheres, que tendia a aumentar conforme a classe social, raça, etnia e outras condições de vida. Essa desigualdade era e ainda é justificada, por setores conservadores religiosos, científicos e políticos, pela diferença biológica entre homens e mulheres.
Nas aulas de história aprendemos as mudanças pelas quais as sociedades passaram ao longo do tempo. A escola forma pessoas para serem cidadãs, terem consciência de seus direitos e deveres, ter capacidade de agir na esfera pública, tudo isso, como que não devemos discutir com os e as jovens estas coisas tão essenciais que permeiam todas as esferas de suas vidas?
Se a sociedade muda, e eventualmente coisas que não eram levadas em conta se tornam questões importantíssimas, deve ser do senso comum que abramos os olhos e pensemos bem antes de definirmos algo de modo muito estático. Depois de dezenas de pesquisas estatísticas que comprovam a desigualdade entre os gêneros.
O gênero, portanto, se refere a tudo aquilo que foi definido ao longo tempo e que a nossa sociedade entende como o papel, função ou comportamento esperado de alguém com base em seu sexo biológico.

Desde o lançamento de O Segundo Sexo, texto clássico da autora francesa Simone de Beauvoir, onde se lê que “não se nasce mulher; torna-se”, há a separação entre o que é natural e o que é social no ser mulher. Se quisermos acabar com um preconceito, o jeito mais próspero é acabando com a base sobre a qual ele é fundado. As mulheres são educadas para serem submissas, frágeis, para gostarem de cozinhar, para serem mães, recebem presentes cor-de-rosa desde antes de nascerem e é provável que a maioria delas acabe sendo assim mesmo.
Discussões estas que nos últimos anos têm obtido sucesso em pautar várias questões da esfera pública e puderam, portanto, alcançar um público muito maior e novato na reflexão destas questões.
Dados comprovam que ainda temos desafios a superar: as mulheres ainda ganham, em média, 68% do que os homens ganham e representam cerca de 15% dos trabalhadores domésticos com e sem carteira assinada, contra 9% de homens. Esses dados estão nesse vídeo superinteressante do IBGE sobre estatísticas de gênero.
Referências:
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Trad. Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
GUEDES, Mª Eunice Figueiredo. Gênero, o que é isso? Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, DF, v. 15, n. 1-3, p. 4-11, 1995. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/pcp/v15n1-3/02.pdf>. Acesso em: 3 fev. 2016. <http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98931995000100002>.
GUERRA, Luiz Antônio, Sexo, gênero e sexualidade, disponível em: https://www.infoescola.com/sociologia/sexo-genero-e-sexualidade/ ALMEIDA, Maria Emília Souza. Pelo avesso da cultura: o feminino. In: Insight Psicoterapia. 1992, 17, p. 12-15.
Imagens: Divulgação da internet



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