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Isolamento Acentua a Desigualdade e Sobrecarrega Mulheres

  • Foto do escritor: Evas com K
    Evas com K
  • 3 de ago. de 2020
  • 4 min de leitura

Uma rápida análise no cenário contemporâneo revela a desigualdade de gênero no campo das tarefas domésticas, há uma desonesta distribuição de afazeres das atividades que muitas vezes é invisível e ainda uma limitação para a igualdade de gênero. Historicamente as mulheres foram as responsáveis por este trabalho o que tem um impacto em sua vida cotidiana, pois é sobre elas que recaem as tarefas domésticas e de cuidados familiares. “Na família, o homem é o burguês e a mulher representa o proletariado”; Engels (1984). O arranjo doméstico tradicional é de que o homem é o provedor e a mulher é a “Senhora do lar”, aquela cuja função e dever era cuidar do marido, dos filhos, parentes, e manter a casa em plena ordenança. Vemos aqui a essência da família patriarcal, onde a família vem como reflexo de desigualdade, uma vez que reproduz a hierarquização de papéis.


Caracterizada como mão-de-obra gratuita, o trabalho doméstico da mulher assegurou a independência das residências, fornecendo a possibilidades para o funcionamento do sistema econômico das famílias. Com a presença cada vez maior no mercado de trabalho, a mulher carrega consigo vários outros afazeres familiares, acumulando funções trabalhistas, domésticas e maternas, ficando assim, sobrecarregada. Uma matéria publicada em 2019 pelo IBGE, traz como título: “Mulheres dedicam quase o dobro do tempo dos homens em tarefas domésticas”, a reportagem cita que mesmo trabalhando fora, a mulher contribui com quase 12 horas a mais que os homens nos afazeres domésticos.

Um fator que contribui para alimentar essa desigualdade está associado a uma mudança social que se sobreveio nas últimas décadas: a inserção da mulher no mercado de trabalho formal. A partir deste momento, principia a haver divisão de provimento o que consequentemente, deveria se estender ao trabalho doméstico, contudo o trabalho de cuidados não é compartilhado na mesma magnitude. Vivemos em uma sociedade de estrutura patriarcal e esta estrutura faz da mulher dominada pelo homem.


Vivemos em uma sociedade de estrutura patriarcal, que consciente ou inconscientemente tem sido concebida à imagem da família burguesa- o homem como provedor e a mulher devendo permanecer em casa atendendo aos afazeres domésticos e cuidando das crianças. [...]. A mulher permanece à margem destes processos esperando que o homem se ocupe de sua sobrevivência e da prole, Toledo et al. (1985).


A mulher vem mudando seu lugar na sociedade. Percebemos que no decorrer da história, a mulher conquistou seu espaço no mercado de trabalho, vezes por necessidade, como no caso de classes mais baixas, ou no caso da classe média, por ter a oportunidade de estudar. O trabalho da mulher esteve presente em todas as épocas e lugares, na verdade elas sempre trabalharam, embora elas nem sempre exercessem “profissões” (PERROT, 2005).

A aversão ao ajustamento de rotinas domésticas das famílias é remetida a valores culturais, que podem estar mudando lentamente, é possível perceber conscientização progressiva entre os mais jovens. Mesmo havendo um crescente interesse dos homens em participar de mudanças dos modelos culturais estabelecidos de organização familiar, ainda há pouco incentivo da sociedade para colaborar com essa transformação.


Um processo já não tão recente na história em que a mulher tem que conciliar tempo de trabalho externo e as tarefas domésticas, tendo como grande desafio dispor de um tempo de qualidade para participar da vida dos filhos e estabelecer um vínculo afetivo, harmonioso e consistente, é um problema que tem se intensificado cada vez mais neste momento de pandemia. A realidade das mulheres no nosso país revela que mesmo trabalhando fora, as mulheres ainda são responsáveis por grande parte das tarefas domésticas, dos filhos e, muitas vezes, dos idosos. A dupla jornada de trabalho já costumeiramente enfrentada pelas mulheres, torna-se ainda mais exaustiva fisicamente, psicologicamente e emocionalmente na quarentena. O fechamento das escolas e CMEIs, para diminuir a propagação do Covid-19, alcançou diretamente as mulheres e principalmente as mães. Inúmeras precisaram abandonar os empregos para cuidar das crianças em casa, por não haver outra opção. Outras necessitaram de uma nova organização para se dividir entre o trabalho em home office e as atividades remotas dos filhos tem sido um desafio a mais no dia a dia de mulheres, sobretudo no contexto social em que pouco homens dividem o trabalho doméstico com as companheiras. Isso sem mencionar que muitos lares brasileiros são chefiados por mulheres.

Apesar de todos os avanços alcançados pela mulher ao longo dos anos, é necessário esclarecer que ainda existe mesmo que de forma menos expressiva, a discriminação o desrespeito à mulher, que conquistou ao longo dos anos, um respeitável espaço no mercado de trabalho. Há emergência de se instituir novos comportamentos para colaboração do trabalho doméstico, mas para isso é fundamental superar e transpor o discurso arcaico que ocasiona o esgotamento de estruturas sociais. Não se pode desconsiderar os grandes avanços que ocorreram durante todos esses anos, e que ao longo do tempo o que não nos falta é a esperança de acreditar que ainda haverá grandes transformações.




Referências:

BRASIL. Pesquisas do IBGE Estão em Campo com a Rotina Ajustada à Pandemia de Coronavírus. Agência IBGE Notícias. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/24267-mulheres-dedicam-quase-o-dobro-do-tempo-dos-homens-em-tarefas-domesticas acessado em 25/06/2020.

ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do estado. Ed. Civilização Brasileira S.A 9º ed. Rio de Janeiro, 1984.

MACHADO, José Jefferson Cunha. Curso de Direito de família. Sergipe: UNIT, 2000, p.3.

PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Bauru, SP: EDUSC, 2005

SAMARA, E. M. A família brasileira. 4. ed. Coleção Tudo é História. São Paulo: Brasiliense, 1998.

TOLEDO, Regina Antônia G. de et al. A dominação da mulher: os papéis sexuais na educação. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1985.

VIANA, Rui Geraldo Camargo. A Família. In: VIANA, Rui Geraldo Camargo e NERY, Rosa Maria de Andrade (organiz.).Temas atuais de direito civil na constituição Federal.São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p.22.


Fonte das Imagens: Divulgação da Internet



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