Um Alguém que Sangra
- Evas com K

- 12 de jul. de 2020
- 4 min de leitura
Palavrinha curta, capaz de causar grandes reações, a menstruação continua sendo tabu em nossa sociedade. Como se não bastasse sangrarmos todo mês, a menstruação vem sempre acompanhada, ou daquelas dores chatinhas que sentimos, como aviso prévio de sua chegada, pelo desconforto de sua estadia ou por aqueles comentários de experts no assunto, super entendedores do universo feminino, mas que nunca menstruaram na vida, os homens, é claro. Afinal quem nunca ouviu a famosa frase: Só pode estar de TPM?! Mulheres têm todo o direito de ficarem bravas, irritadas, sem paciência, sem que necessariamente isso seja causado pela TPM. Cá entre nós, quem nunca esteve em cólicas ao tratar com pessoas inconvenientes, não é mesmo?

Em certas culturas, como a da Índia, por exemplo, a mulher menstruada é vista como alguém “impura”, que naqueles dias, não está ou não é digna de realizar tarefas normais do dia a dia, como preparar as refeições da casa, pois para eles o contato da mulher com o alimento, poderia contaminá-los. Em fevereiro de 2020, a BBC (Corporação Britânica de Radiodifusão), relatou a exposição de 68 estudantes universitárias, que foram conduzidas até um banheiro e tiveram que abaixar suas calcinhas para serem inspecionadas por professores, a fim de constatar se elas estavam ou não menstruadas. No país, pela mulher ser considerada impura durante seu período menstrual, as universitárias, são obrigadas a seguir algumas regras de isolamento durante este período. Estudantes menstruadas são proibidas de entrar em templos ou em cozinha e de tocar em outros estudantes, inclusive na hora das refeições devem sentar-se longe dos demais, em um canto especifico, separado à elas, além de lavar sua própria louça e se sentar na última fila dentro da sala de aula. Para controlar o período menstrual das estudantes, estas deveriam notificar por escrito quando ficassem menstruadas. Como em dois meses, não havia registros de estudantes menstruadas, ou seja, as estudantes não registraram seus nomes, o diretor da instituição optou pela revista.

Os produtos de higiene menstrual, são artigo de luxo entre as indianas, que para deter o fluxo, utilizam papel, trapos, cinza e até areia, já que apenas 58% delas têm acesso a absorventes, por falta de dinheiro e até mesmo por vergonha em compra-los. Essa realidade por mais que pareça distante, não é muito diferente da realidade de muitas brasileiras, pela falta de condições financeiras, além de papel e trapos de pano, usam até miolo de pão. As que conseguem comprar absorvente acabam permanecendo com ele, além do tempo recomendável, para tentar economizar.
No ano de 2019, o documentário “Absorvendo Tabu”, foi o grande ganhador do Oscar Melhor Documentário curta-metragem que retrata a implementação de uma máquina de absorventes biodegradáveis na Índia. A vitória do documentário representou também a vitória de muitas mulheres, que enfim poderão ter um pouco mais de conforto nesses dias, porém evidenciou o constrangimento que a maioria delas sente, ao serem abordadas sobre o assunto, e apesar do avanço que o maquinário poderá lhes trazer, a muito ainda a ser feito em relação ao preconceito vivido por elas, que são julgadas constantemente por algo que faz parte de sua condição biológica.

No documentário, grande parte dos homens indianos vê a menstruação como uma doença, e preferem não falar sobre o assunto, mas engana-se quem acha que isso ocorre somente lá, na Índia, aqui mesmo no Brasil, grande parte do universo masculino trata a menstruação como um monstro de costas largas, “menstruação”, que toma conta das mulheres e as transforma em verdadeiras feras. O monstro é tão assustador, que muitos homens nem ao menos conseguem nomeá-lo, e preferem o codinome de “naqueles dias”. Mas como toda regra têm sua exceção, é possível encontrar nobres corajosos, que no auge da batalha enfrentam o monstro com chocolates em punho, carinho e muita atenção, e até com grande sabedoria, salvam a donzela da torre munidos de absorventes, e uns lencinhos, porque ficamos emotivas mesmo, né? Capazes de se emocionar até mesmo com isso, recebendo o absorvente e o cuidado como se fosse um lindo buque de flores.
Brincadeiras a parte, o fato é que muitas mulheres, em vários locais do mundo, das mais variadas culturas, ainda cultivam uma serie de preconceitos e tabus e até crenças com o próprio corpo e sua biologia.
Uma pesquisa global realizada pelas empresas Johnson & Johnson em parceria com a KYRA Pesquisa & Consultoria, revelou algumas particularidades das entrevistadas a respeito de seu ciclo menstrual:

Nas Filipinas, 75% não tomam banho, 49% não tomam sorvetes ou bebidas geladas e 24% não fazem bolo ou maioneses ou conhecem alguém que não façam isso durante a menstruação;
África do Sul, 32% não se encostam a imagens religiosas, 34% não visitam templos ou conhecem mulheres que evitam fazer isso;
Índia, 57% não entram na cozinha, 39% são tratadas como intocáveis pela família e não dormem na própria cama, 37% não se sentam à mesa com a família e 30% são proibidas de sair de casa ou reconhecem pessoas que passam por essas situações;
No Brasil, 43% não andam descalças e 31% não lavam o cabelo ou conhecem alguém que façam isso durante esse período, 7 a cada 10 mulheres se preocupam com o descarte do absorvente no lixo, com medo de que alguém possa vê-lo e apenas 22% não sentem medo de se levantar durante o período menstrual e quase a metade, 46%, afirma esconder o absorvente no caminho do banheiro e que 42% se precisarem tomar emprestado, fazem isso de maneira discreta, em segredo.
Ainda 54% revelam que não sabiam nada ou tinham poucas informações sobre menstruação no momento da menarca. Muitas mulheres não conhecem o próprio corpo, desconhecem até mesmo que menstruação e a urina, saem de lugares diferentes, a menstruação sai pela vagina/ vulva que têm ligação direta com o útero enquanto que a urina sai da uretra.
Se conhecer, se amar é um caminho sem volta, mas um lindo caminho. Respeitar nosso corpo, tratar algo normal, como normal, é o primeiro passo para a quebra de tabus. O Evas com K deu seu primeiro passo, caminhe conosco! “Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores” (Cora Coralina).
Trailer do Documentário Absorvendo o Tabu - dirigido por Rayka Zehtabchi
Referências
BBC-News. Faculdade indiana gera polêmica ao forçar estudantes a se despir para checar menstruação. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51522157.
Guia da Farmácia. Período Menstrual Ainda é Tabu. Disponível em: https://guiadafarmacia.com.br/materia/periodo-menstrual-ainda-e-tabu/.
UOL. Documentário Indicado ao Oscar Quebra Tabu Sobre Menstruação na Índia. Disponível em:https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/02/02/documentario-indicado-ao-oscar-quebra-tabu-sobre-menstruacao-na-india.htm




Comentários